segunda-feira, 4 de abril de 2016

História 2

Eu ainda trabalhava no hospital quando conheci essa figura, entro no quarto com 5 leitos e logo o 2 lá está o Sr Tronco...e ele não quer sentar na beira do leito embora conseguisse, e depois de insistir muito ele se senta e me pede: Coça as minhas costas? ....Tive que rir e claro fiz o favor, quando ele teve alta devido a debilidade muscular ele foi para um lar de repouso para idosos, e me chamou para fazer a Fisio Particular, quando ele conseguiu sentar-se sozinho na beira da cama resolveu voltar para casa, ele tinha uma namorada, isso mesmo, namorada que ia visita-lo quase todos os dias e levar comida, dinheiro e roupas. Em casa então seguimos os atendimentos e conversas, eu chegava lá e ele me pedia para marcar medico pra ele, fazer almoço, compras na internet e até assinatura numa página de relacionamentos, precisou do meu cartão de crédito emprestado, e eu emprestei.....aí então o salto de melhora dele foi extraordinário, ele queria namorar e precisava ficar bom e voltar a caminhar e dirigir.
Tinha dias que ele se sentia tão sozinho que quando eu chegava ele dizia: Senta aí guria, hoje eu não vou fazer exercício, quero conversar contigo, mas não te preocupa, vou te pagar igual, e ele pagava para ter uma ouvinte por uma hora, e isso me cortava o coração e por isso eu voltava e fazia almoço, café da tarde, levava chocolates e na hora do almoço ele fazia questão de abrir um vinho e tomar uma taça. Me contou muitas histórias da vida dele e ele tinha uma lábia, escreveu dois livros e um deles eu ganhei um exemplar, suas paixões eram o site de namoro na internet e os dois cachorros que ele tinha. 
Finalmente então as mulheres do site começaram a responder e se interessar por ele e um dia quando eu chego lá ele me pergunta apavorado: Guria o que eu faço? convidei duas mulheres p viajar e me conhecer e as duas aceitaram e estão vindo. Me caiu os butiás do bolso e eu não sabia o que responder...mas nesse ritmo me lembro de ter conhecido pelo menos quatro mulheres diferentes, até que por uma ele se encantou e se mudou para outra cidade e aí me abandonou. Me ligou algumas vezes p eu passar o final de semana na cidade dele e atende-lo em troca de pousada e comida, mas a correria nunca me permitiu, a unica vez que fui não avisei e ele havia voltado p cidade de origem para a casa da filha. me ligou pedindo atendimento lá, mas pelo deslocamento não valia a pena e indiquei uma colega para acompanhá-lo.
Não sei como mas ele veio parar novamente numa casa de repouso na minha cidade e novamente eu o acompanhei, mas lá ele estava diferente, dois anos tinham se passado mas de 65, ele parecia ter 85 anos, parecia cansado, e desestimulado.
Levei a minha afilhada numa das vezes que fui atendê-lo para que a alegria de uma criança o contagiasse e aí consegui arrancar alguns sorrisos, mas momentâneos.
Na outra semana ele piorou e eu sugeri acompanhamento medico, ele me olhou deitado no leito, me estendeu a mão e me disse: Tu não é só a minha fisioterapeuta, tu é minha amiga. E um nó na garganta tive que engolir porque tamanha declaração de sinceridade me fez querer chorar de alegria, mesmo percebendo que era um recado final.
Depois da consulta médica o próprio medico enviou uma ambulância para que ele fosse removido para o hospital por estar muito ruim, acontece que o rapaz da ambulância não queria levá-lo porque ele ainda estava falando, eu disse como assim, o sr só vai remover se ele estiver tendo uma sincope? o rapaz sem oxímetro ou outro instrumento de medida me afirmou que o sr Tronco não estava dispneico, eu contestei, falei que era fisioterapeuta e que ia rasgar meu diploma se aquilo não fosse dispneia, aí ele alegou que precisava de um familiar acompanhando, e agora? 
Um feedback me passou pela mente de todos os momentos e sem duvida remarquei os outros dois pacientes que faltavam para encerrar o dia e fui como acompanhante dele.
Não existe bem maior do que fazer o bem ao próximo, sem esperar nada em troca. Fiquei duas horas com ele no hospital até a filha dele chegar,  ele internou com um quadro grave de infecçaõ respiratória, visitei ele uma vez e foi a ultima vez que eu vi ele. Recebi um whats app da filha três dias após a morte dele. Levei um susto e ainda não acredito que ele se foi, um homem que com todos os seus defeitos, e pelo que ele me contou da vida , tinha muitos, ainda sim conseguia me dar conselhos, fazer piadas, mostrava a vontade de se apaixonar de verdade mesmo acima dos 60 anos. Eu chorei  e fiz no momento uma oração do Pai Nosso para que a sua alma siga o caminho em paz. Fica aqui o agradecimento pelos ensinamentos que ele me deixou e por sua amizade.
Essa foi a mão que por vezes ajudei, sustentei para ganhar equilibrio e orientei a dar os primeiros passos (de certa forma).

Correria...

O que seria da vida de uma Fisio se não existisse correria....a gente corre p atender todos no horário na clinica, corre p tentar respeitar o horário domiciliar, corre pra dar tempo de ir no mercado, corre p dar tempo de arrumar a casa, cuidar do cachorro (no meu caso 4), e corre p dar tempo de visitar pai, mãe, vó, vô....e toda essa correria ainda tem que se encaixar com a do Marido, esposa ou acompanhante. Mas se não tivesse essa correria não seriamos Fisioterapeutas.
Demorei para poder escrever de novo por causa da correria, e depois do aniversário da Gordinha (Lívia), já trabalhei a Páscoa toda, já comemorei o aniversário do Hugo meu afilhado e do Hugo meu Pai, e hoje ainda em especial outra surpresinha para a Quedima, mamãe da Lívia, um café quase colonial para nossa amiga.
E durante esse café conversas informais com colegas da área da saúde me fizeram lembrar de outra história...


quinta-feira, 24 de março de 2016

Final de Dia

Conseguimos descobrir o que nos faz feliz quando a recompensa pelo ato é um sorriso...de um paciente, de um familiar, ou da mãe ou vó da gente mesmo...quando contamos alguma coisa do nosso dia de trabalho. Hoje só consegui parar agora, mas por um motivo especial, uma das minhas pacientes vai fazer um aninho amanhã e estava até agora fazendo muffins e um bolo p festinha dela. Não tem como não se envolver, o contato diário faz com que cada momento de alegria seja compartilhado com todos que a cercam. Existem pacientes e pacientes uns com mais dinheiro, outros com menos e ainda aqueles com dinheiro nenhum e que se esforçam para manter a Fisioterapia porque acreditam que funciona e assim funciona o meu trabalho, e esse esforço faz com que me sinta privilegiada de ter aquela pessoa acreditando em mim!!!
Tem uma outra paciente minha..a Rafa que eu vejo ela dois, tres dias seguidos e uma vez por mês, ela tem quase quatro anos e de temperamento fortíssimo, ela tem o diagnóstico de AME ( Atrofia da Medula Espinhal) por isso faz a fisio três vezes ao dia...então quando eu a atendo é uma overdose de Aline..kkkk, quando cheguei a primeira vez no atendimento dela ela nem me olhava direito, e ao ser mobilizada ela chorava...ai que dó...mas agora que ela já me conhece melhor ri das minhas bobagens...e o sorriso dela ilumina meu dia, A Rafa tem pais muito dedicados (os melhores..kkk) e ela sente o apoio deles o tempo todo. Guerreira, dorminhoca, alegre e sorridente são as palavras principais que me veem a cabeça para defini-la. Mês passado eu consegui estar presente no Messário dela  e levei a minha afilhada junto para interação e aumentar a amizade, e desde a primeira vez que a Letícia ( minha afilhada) foi lá sempre que eu digo que vou trabalhar ela pergunta:- Tu vai lá na Rafa Dinda??? um amor sempre procurando amiguinhas.
Bom resumindo o meu dia hj foi ótimo, mesmo esgotada, mesmo que ao chegar em casa depois de fazer bolo tenha que ir para a garagem arrumar as coisas e depois disso limpar o vaso do banheiro, mesmo assim sentindo-me realizada de fazer brotar sorrisos!
Amanhã posto fotos da Festinha da gordinha!!

quarta-feira, 23 de março de 2016

História número 1

Nem todas as histórias aqui tem um final feliz ou um relato longo....porque as vezes uma simples frase de um paciente nos faz pensar o dia todo por semanas...
Então...quando eu era estagiária na faculdade existia uma disciplina chamada Comunitária com 5 graus onde a visita domiciliar se iniciava na Comunitária 3, fazíamos então duplas para visitar o paciente e o nosso primeiro contato era fazer uma Anamnese (tipo uma entrevista) do paciente com nome, idade, queixas principais, medicações, exames e mais um monte de itens que nos permitem conhecer melhor a pessoa. Chegamos então até um Sr que vou chamar aqui de Eucalipto, este senhor então tinha sequelas de Acidente Vascular Cerebral (AVC), mas possuía movimento das pernas porque caminhava com auxilio de uma bengala, um certo dia lá pelo sexto atendimento chegamos e qual não foi a nossa surpresa a nora do seu Eucalipto estava passando mal, ela falava coisas sem sentido, enrolava a língua, tirava as roupas dos armários, das gavetas...jogava camisinhas, isso mesmo preservativos sobre a cama e dizia para o marido que o amava...bom como dizem por aí ficamos chocados...ligamos para a professora na mesma hora pedindo socorro e esta chamou a ambulância suspeitando de esta senhora estar tendo um evento de AVC, quando a ambulância chegou a mesma foi levada para o hospital...e a nossa suspeita não foi confirmada...o que ela teve foi uma intoxicação pela medicação a base de litium por ter Bipolaridade e o que presenciamos foi uma crise aguda de Bipolaridade...me lembro bem desse dia porque foi com muita destreza que a professora conseguiu informar para a central da ambulância o que estava acontecendo e todas as informações que ela passou fizeram com que eles viessem de imediato...naquele momento tive certeza que estava indo pelo caminho certo e que queria poder ajudar assim como eu vi a minha professora fazer!!!
Na outra semana ela já estava em casa e bem. FIM.

No link abaixo algumas informações sobre Bipolaridade.
http://www.adeb.pt/pages/que-e-doenca-bipolar


Fotos e Apelidos

Tenho várias fotos dos pacientes que atendo e já atendi...mas certamente só colocarei aqui fotos de pacientes que autorizaram a divulgação. Com apenas uma excessão...os que já não estão mais aqui...ai nesse caso a família autoriza.
O nome também é preservado utilizando nomes fictícios ou apelidos.
e isso me fez lembrar de alguns apelidos que eles me deram...kkkk
- Quebra ossos;
- Mengueli;
-Carminha;
-Anjo de branco;
-Doutora;
-Vizinha...
entre outros...kkk




Inicio

Bom dia!!!
Devido aos acontecimentos do dia-a-dia na minha vida, principalmente de Fisioterapeuta, achei por bem aqui escrever histórias dos atendimentos para que com o passar do tempo os pacientes que me ensinam tanto não fiquem esquecidos, pois já sou formada desde 2010 e entre eles tem os dos estágios, que já não consigo me lembrar de todos.
Sempre que se entra na casa de uma pessoa temos um convite, mas quando este convite é causado por uma doença torna-se mais difícil estabelecer uma confiança entre terapeuta e paciente, mas posso afirmar que depois de estabelecida essa conexão não se tem apenas pacientes, se tem amigos e as vezes toda uma família nova que se importa não só com a sua capacidade terapêutica como com a sua vida pessoal, torcendo a cada dia por uma melhora, um sucesso ou o cessar de uma dificuldade.
Espero que minhas histórias e aprendizados sirvam também para passar motivação para a luta diária de todos que se interessarem por ler meus posts.
Mas já quero deixar aqui, no primeiro dia, o meu muito obrigada a todas as pessoas que permitiram que eu entrasse na sua casa e confiaram no meu trabalho.